6 horas semanais reduzem risco de obesidade infantil

Estudo observou que, quando se movimentam por esse tempo ou mais nos momentos livres, pré-adolescentes têm menos chance de serem obesos aos 14 anos. Pediatra e profissional de Educação Física explicam


Por Por Gabriela Bittencourt, para o EU Atleta em 27/08/2021 às 08:47 hs

6 horas semanais reduzem risco de obesidade infantil
Pais devem dar exemplo aos filhos e estimulá-los a terem uma vida mais ativa desde crianças — Foto:

O excesso de tempo em frente a telas é considerado um dos principais fatores para o aumento do sedentarismo e do ganho de peso entre os jovens. Um estudo, desenvolvido na Universidade de Helsinque, na Finlândia, procurou entender se é possível reduzir os efeitos adversos desse comportamento entre pré-adolescentes e adolescentes. Segundo os pesquisadores, seis horas ou mais de lazer ativo por semana podem diminuir as chances de ganho de peso em adolescentes por causa do excesso de tempo mediado pela tecnologia, com celular, tablets, computadores e TV.

Ao longo de três anos, os autores do estudo acompanharam cerca de 4,7 mil jovens, com objetivo de investigar se hábitos sedentários aumentam o risco de ganho de peso acima do peso em adolescentes. A pesquisa ainda buscava entender até que ponto a prática de atividades físicas no tempo livre poderia reduzir esse impacto. Os participantes, que, no início da pesquisa, tinham 11 anos, responderam questionários sobre uso de eletrônicos e atividades físicas nos momentos de lazer e tiveram o seu Índice de Massa Corporal (IMC) verificado.

Para o pediatra e médico do esporte Marcelo Riccio Facio, essa é uma pesquisa muito bem conduzida, que conseguiu estabelecer uma associação de causa e efeito entre o sedentarismo decorrente do uso de eletrônicos e obesidade. Pediatria do esporte do Laboratório de Performance Humana, da Casa de Saúde São José, Marcelo comenta que essa relação entre o excesso de telas e o ganho de peso já é conhecida entre adultos. Contudo, a pesquisa delimita que isso se dá também entre os mais jovens: as crianças que passavam mais tempo sedentárias foram as que estiveram mais acima do peso. Os pesquisadores categorizaram a prática de atividades no momento de lazer em três níveis: 0 a 5 horas (baixo), 6 a 8 horas (moderado) e maior que 9 horas (alto) por semana.

– Os pesquisadores informam que ainda não havia um trabalho que mostrasse isso dessa forma e tentaram estudar essa associação de forma prospectiva e longitudinal. Eles conseguiram mostrar onde gira a chave. A pesquisa identificou que seis horas semanais de atividades físicas de lazer reduzem esse risco – declara o pediatra e médico do esporte.

Mestre em Ciências da Saúde, com ênfase em fisiologia do exercício, o educador físico Thiago Ferreira observa que, ao associar o sedentarismo e o risco de excesso de peso entre crianças e adolescentes, a pesquisa deixa claro que as atividades físicas no momento de lazer são capazes ajudar no enfrentamento de um dos grandes problemas de saúde pública da atualidade: a pandemia de obesidade infantil. Master trainer nacional da Rede de Academia Bodytech, Thiago argumenta que o estudo não traz recomendações sobre intensidade dos exercícios, porém deixa claro que trocar o tempo livre em frente às telas por atividades físicas permite diminuir as chances de esses meninos e meninas tornarem-se obesos em um curto prazo.

– O que importa é se mexer, diminuir o tempo sentado ou deitado em frente à TV, tablet ou celular. Essa é a principal mensagem do estudo. O tempo sentado pode aumentar o risco não só de aumentar o peso, mas também do aparecimento de doenças, como as cardiovasculares, associadas à falta de movimento – afirma Thiago.

O pediatra lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o uso de tecnologia não deve ultrapassar duas horas diárias, sem considerar o tempo de telas para atividades escolares. Além disso, para além das atividades no momento de lazer, a OMS indica ainda a prática de 60 minutos de exercícios físicos por dia entre crianças e adolescentes. Marcelo pondera que o contato com a tecnologia e os eletrônicos é inevitável e que esses avanços vêm transformando as profissões, inclusive. Por isso, não se trata de uma questão de proibir, mas de seguir essas recomendações, como a proposta pela pesquisa para a inclusão de lazer ativo, para reduzir os efeitos do sedentarismo em crianças e adolescentes.

– A criança é ativa por natureza, mas, se ela não tiver estímulo, buscará o caminho mais fácil. Os videogames e jogos online, por exemplo, são muito atrativos. Mas, quando a gente imagina o momento de lazer de criança e adolescente, pensa em brincadeiras na praça, andar de bicicleta ou skate ou jogos com irmãos e amigos. É preciso buscar outras saídas e os pais devem estimular isso. Se quem cuida, não incentivar essas atividades, fica mais fácil para a criança e o adolescente aderirem a comportamentos sedentários – constata o pediatra.

Riscos do sedentarismo

Segundo o profissional de Educação Física e fisiologista do exercício, o comportamento sedentário estimulado pelo excesso de telas passou a inspirar ainda mais atenção com a pandemia de Covid-19, já que as pessoas começaram a se movimentar menos no dia a dia. Entretanto, é preciso incluir mais atividades físicas na rotina para evitar que o comportamento sedentário favoreça o ganho de peso e cause outros prejuízos na saúde.

– Quando a pessoa está acima do peso, seu corpo está inflamado e ela tende a ter outros tipos de doenças. A obesidade é uma caixinha de surpresas. Junto com ela podem vir outros problemas, como hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer. Imagine só a criança e o adolescente com esse histórico negativo em saúde. Eles podem se tornar adultos com comportamentos sedentários e problemas de saúde. Para uma vida mais saudável e longa, é preciso estar em equilíbrio em todas as esferas. É preciso ter mais movimento, sono de qualidade, dieta balanceada e cuidar da saúde mental, através de atividades como esportes, meditação e yoga – comenta o profissional de Educação Física.

Marcelo comenta que, mesmo no curto prazo, é possível notar os impactos do sedentarismo. Crianças e adolescentes, ao serem menos expostos às atividades físicas, podem apresentar um movimento motor inadequado e não desfrutar de outros benefícios associados a essa prática, como interação social e relaxamento. O pediatra ainda acrescenta que é importante ficar atento à alimentação e ao consumo de alimentos ultraprocessados. Não à toa, os pesquisadores do estudo finlandês também estabeleceram associação do sedentarismo e do excesso de peso com outras variáveis, como alimentação e o sono.

– Se a criança está em casa, ela pode ficar beliscando. Esse hábito é péssimo. Os jogos eletrônicos também podem gerar ansiedade e prejuízo ao sono, e a criança tende a comer mais. Se tiver em casa uma pera e uma barra de chocolate, a criança vai comer a barra de chocolate. Dessa maneira, são oferecidos a ela inatividade e consumo inapropriado de alimentos – alerta o médico.

Dicas para um lazer mais ativo

Quando meninos e meninas ainda são crianças, fica mais fácil envolvê-los em uma brincadeira ou atividade física. Com a chegada da adolescência, parece mais difícil despertar o interesse deles. Marcelo reconhece que manter os adolescentes mais ativos fisicamente pode ser um desafio maior do que quando ainda são criança. Além disso, é com 11 anos que se completa a alfabetização motora, segundo o pediatra.

Por isso, Marcelo recomenda que esse hábito seja estimulado desde a infância. Dessa maneira, se o jovem não desenvolve habilidades para atividades físicas, que inclua força, flexibilidade, agilidade, velocidade, equilíbrio e resistência muscular, pode acabar perdendo o interesse e se afastar. No entanto, ao descobrir as atividades que podem despertar o interesse do adolescente, é possível envolvê-lo em um lazer mais ativo. Para isso, os pais devem dar exemplo e praticarem exercícios também.

Dicas do educador físico para manter a criança ativa

Procure descobrir a atividade que mais agrada a criança ou adolescente. Observe se ele prefere pedalar, patinar ou andar de skate, por exemplo. Incentive que seu menino ou menina tenha contato com diferentes atividades. Qualquer pessoa precisa gostar da atividade praticada para aderir a ela. E com pré-adolescentes e adolescentes não é diferente;

Incentive que seu filho ou filha brinque também. Queimada é uma boa opção. Mas, nessa fase da vida, jogar basquete, vôlei e futebol também podem ser uma excelente brincadeira, e a interação social também é muito importante. Dessa forma, as chances de o seu filho ou filha optarem por fazer uma atividade física no momento de lazer aumentam. Essa pode ser uma forma de estimular jovens com menos aptidão física a se movimentarem mais, inclusive;

Dê exemplo. Os filhos se espelham nos pais e mães. Se você se alimentar bem e manter-se ativo, inclusive no seu lazer, as chances de eles adotarem esses comportamentos são maiores. Portanto, movimente-se mais você também;

Estimule a realização de atividades físicas em família nos momentos de lazer. Saia para pedalar, patinar, fazer uma trilha ou uma caminhada ou corrida na praia. Outra dica para aumentar o interesse dos seus filhos é promover gincanas para envolver a família em uma divertida competição. Uma opção é criar um desafio; quem acumular mais horas de atividades físicas na semana ganha algum tipo de recompensa;

Considere a possibilidade de o seu filho ou filha fazer musculação. Sim, essa atividade também é indicada para adolescentes, quando têm liberação médica e prescrição dos exercícios por profissional de Educação Física. Musculação pode proporcionar inúmeros benefícios para o desenvolvimento de meninos e meninas, incluindo melhora da autoestima. Fora que poderá prepará-los melhor para aqueles momentos em que ficam sentados, já que proporciona uma correção da postura e fortalecimento muscular;

Não tente proibir de vez o uso de eletrônicos. O uso moderado e supervisionado não fará mal para o seu filho. Mais uma vez, com crianças menores é mais fácil de estabelecer regras, mas é importante que sejam definidas também para meninos e meninas a partir da pré-adolescência. Estabeleça horários para o uso do celular, tablet ou videogame, porém procure ainda preencher o dia do seu filho ou filha com atividades que os manterão mais ativos na maior parte do dia;

Lembre-se de que tudo na vida depende de equilíbrio. É preciso estimular a prática de atividades físicas, mas também melhores escolhas alimentares e sono de qualidade, até porque todos esses fatores se beneficiam mutuamente. Enquanto dormir e comer bem melhora a disposição de meninos e meninas para manterem-se ativos, os exercícios também contribuem para que tenham noites bem dormidas e melhores hábitos alimentares. E vale frisar: evite ter em casa alimentos ultraprocessados. Assim, você impede que, na hora que bater a fome ou mesmo um momento de ansiedade, seu filho recorra a essas opções.

Fontes: Marcelo Riccio Facio é pediatra e médico do esporte. Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é coordenador da pediatria do esporte do Laboratório de Performance Humana, da Casa de Saúde São José.

Thiago Ferreira é profissional de Educação Física e mestre em Ciências da Saúde na fisiologia do exercício. É coordenador do curso de Educação Física da FMU, coordenador e professor dos cursos de pós-graduação da FMU (SP) e da Estácio e master trainer nacional da Rede de Academia Bodytech.



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